quarta-feira, 11 de abril de 2012

Feliz até doer

"De Peito Aberto". Foto: Hugo Lenzi

"Felicidade não tem manual, mas acertando e errando a gente constrói nossa cartilha de crenças. Somos na essência sozinhos e livres.

Eu tinha dez anos e era um moleque que só se preocupava em jogar bola. Enquanto meninas da minha idade colecionavam papéis de carta e brincavam de boneca, eu vivia suja, suada e cheia de hematomas pelo corpo - cortesia do tratamento igualitário de meus colegas boleiros. E nesse doce ritmo ia a vida, até o dia em que conheci meu primeiro trauma.

Durante uma briga com meu irmão caçula ouvi de minha mãe: "Pare de brigar com ele. Ele não tem culpa se você não é homem". E a realidade bateu à minha porta. Foi o dia em que eu entendi que ser diferente não era normal. E que talvez eu, de fato, não fosse quem gostaria de ser.

A partir de então, todas as noites eu ia para a cama me questionando se queria ser meu irmão. Ou se queria ser homem. Só encontrei a resposta no dia 12 de dezembro de 1983, quando beijei minha melhor amiga na boca. Não, eu não queria ser homem. Queria apenas poder amar outras mulheres e demonstrar meu amor fisicamente. Mas isso parecia impossível num mundo no qual a cartilha moral nos manda casar e, na seqüência, ter, de preferência, um casal de filhos. Se além disso conseguirmos colocar dois carros na garagem e um cachorrinho na sala, bingo, tudo o que esperavam de nossa jornada terá sido devidamente conquistado. E, aos olhos do mundo, seremos felizes. Mas minha existência, desde muito cedo, não seguiu nenhum manual já criado.

Com o tempo descobri que a vida, felizmente, não é previsível como um filme da Disney. Crescemos, mas levamos com a gente todos os traumas da infância. Viramos adultos, por mais bem resolvidos, cheios de dores e feridas. Passamos a vida em busca de repetir as sensações da adolescência, quando as amizades eram descompromissadas, as baladas não tinham hora para acabar, e os amores, arrebatadores. Quando os cortes mais profundos podiam ser sentidos na carne, sem pressa de cicatrizar. Quando dormir depois da Sessão da Tarde era aceitável.


Solidão de sábado à tarde


Olho em volta e vejo meus amigos aos 30 e poucos. As paixões verdadeiras e arrebatadoras são raras, e, quando vêm, vêm cheias de complexos e desencontros. Solidão de sábado à tarde. Tentamos lamber as feridas para que elas não sangrem aos olhos alheios. Esperam muito de todas nós: é preciso ser forte, elegante, bonita, bem-sucedida, casada, ter filhos, cuidar da casa. É preciso que sejamos várias em uma só, e falhar em alguma dessas tarefas pode comprometer todas as outras. O diabo é que já provamos que somos capazes da multiplicidade, mas estamos chegando à conclusão de que não queremos passar a vida sapateando entre o cabeleireiro, a escola do filho, a reunião de trabalho e a satisfação sexual do companheiro.

Queremos apenas ter o direito de sangrar no nosso canto, sem audiência, sem platéia, quando a dor bater forte. Queremos nos apaixonar e poder tirar férias para curtir a paixão, ou a dor da separação. Queremos apresentar um projeto de lei que permita aos apaixonados e aos recém-abandonados não trabalhar por seis meses, ou mais.

Queremos entender que a felicidade não é o destino, mas a viagem. Que ela se encontra na mesa de um bar qualquer, num fim de tarde qualquer, jogando conversa fora com amigos sinceros. Que mora no abraço apertado de um sobrinho, em uma rede que balança compassadamente na varanda de um apartamento no coração da maior cidade do Brasil ao cair da noite, no beijo da pessoa amada, num fim de semana na praia com amigos antigos. Que a felicidade é saber, finalmente, quem somos e o que queremos fazer aqui. E que buscar nossas verdades individuais, por mais distantes que elas estejam, é o grande barato dessa jornada. Que existe um tipo de felicidade nas brigas, cheias de mágoa e de dor, com quem amamos. Que é possível crescer no sofrimento. Que por vezes a vida vai ficar tão cinza e sem graça que a vontade de desistir vai nos sufocar. E que, nesses dias, sonhar não será possível. Mas que todos passam por momentos de desespero. E que a felicidade será resgatada em novos sonhos.


Por que não nos deixam cair?  


Olho em volta e vejo meus amigos crescidos, mas andando de mãos dadas com as crianças que foram. Gostaríamos de ter aquele adulto de segurança na nossa cola, aquele que vai, todo curvado e atento.

Uma simples ameaça de tropeço, e a mão está pronta para o resgate. A partir daí, para sempre precisaremos saber que seremos amparados a cada tropeço. E essa infernal necessidade de segurança aniquila nossa liberdade. Por que não nos deixam cair?

Somos, antes de mais nada, animais livres, e a liberdade é, para cada um de nós, mais visceral do que a segurança. Ou deveria ser. Porque a vida é feita de levantar, lamber a ferida e seguir. Não estaria a felicidade na coragem de trocar segurança por liberdade?

Na ousadia de abrir mão de convenções e detritos morais pelo que queremos ser e viver de verdade? Em um simples beijo, roubado em um domingo de manhã, da mulher que se ama na mesa da padaria? Em receber, no meio de uma reunião chata, uma mensagem pelo celular com apenas três palavras que vão nos fazer sorrir?

Felicidade é dançar sozinha na sala sem ninguém por testemunha, sem motivo aparente. É pedir demissão quando o tesão acabar, mesmo sem ter outro emprego. É fracassar e não ter vergonha de admitir, simplesmente porque não existe quem nunca tenha fracassado. É saber que somos fracos e pequenos, e, ao mesmo tempo, fortes e gigantes. Que somos biologicamente idênticos, e por isso não existe entre nós os que são melhores e os que são piores.

Mas também saber que somos absolutamente diferentes uns dos outros. E que a beleza está nesses pequenos espaços que nos distinguem, e não no que temos em comum. Felicidade é se deixar levar pelo coração e fazer com que a cabeça seja subordinada a ele, e não o contrário. É não se prender à tradição, é questionar a moral do mundo, um mundo cujos valores são tão tortos que é capaz de limitar e punir o amor, mas não a guerra.

Felicidade é entender que andamos todos pela rua, numa segunda-feira qualquer, machucados, feridos, torturados. Que somos bichos cheios de traumas. Que cada um de nós possui um segredo mais dolorido que o outro. Mas que não existe vida sem dor. Pelo menos não o tipo que valha a pena ser vivida.

Felicidade é olhar no espelho e ver nosso rosto envelhecer. Com todas as marcas que nele cabem. E entender que envelhecer é a única opção agradável. Porque a outra, convenhamos, me parece bem pior. E, já que a viagem é curta, é preciso arriscar. Sempre. E saber que não existe um manual que nos ensine a ser feliz. Mas que, sofrendo, amando e arriscando, estamos construindo nossa cartilha de crenças. Uma cartilha que é individual. E que, mais cedo do que tarde, ela nos libertará. Porque somos, na essência, sozinhos e livres".



Acho esse texto da jornalista Milly Lacombe lindo, inspirador, verdadeiro e significativo para mim. Resume um pouco do que penso sobre a vida e como precisamos aceitá-la em seu percurso. Naturalmente. E fazer dela uma luta constante em busca da felicidade. Até porque, ao final, sempre vale mais a pena batalhar do que desistir sem tentar à exaustão.

Indico também o filme "O Diário secreto de Miss Anne Lister", que vi recentemente e me inspirou bastante. Aborda justamente essa questão de manter o amor próprio e a necessária coragem de ir atrás de exatamente aquilo que se deseja, seja em qualquer época da história.


No mais, as sábias palavras de Emílio Santiago - influência familiar confessa - também fala por mim (e me dá colo materno nos dias de crise).



domingo, 23 de outubro de 2011

Mocaccino



A maturidade chega
Amarga como café
Porém saborosa se souber adoçar

A lágrima parece secar sozinha
Quem a enxugará senão a ti mesma
No íntimo do seu lar interior?


Mulher, és uma mulher!
Admirável... na elegância da sua postura
Ainda és verde para a eternidade
Mas tem experiência suficiente para ser forte

Não que isso a impeça de chorar
Sim, até debulha-se
Mas sabes o porquê

E, quase cética de triste, no fundo acreditas que muda
E a razão afirma que sempre muda

Não tapes os ouvidos
Abre os olhos.

mai 2006


Uma nova (e marcante) fase da minha vida...




terça-feira, 18 de outubro de 2011

Megalópole



Garoam minhas lágrimas, enquanto me afasto da província do dendê. Tristeza fina, porque o banzo só virá mais tarde. Injeções de realidade em um mundo curioso e imprevisível. A promessa de um amor. Exército de autosuficiência e lei do mais forte. Existencialismo intricado à realização pessoal. E o intermitente desejo de liberdade...

set 2011
modificado em out 2011

Foto: Luciana Zacarias

domingo, 4 de setembro de 2011

Gatos



"Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram" 
(História de uma gata - Chico Buarque)

Imagem: Mica

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dadaísmo Terrorismo

 

Quimeras! Gruaaaar!
Não, não!
Crash, bum, bah!
Não, não, nãaaao!
Não, porra!
Tá tá tá tá tá tá tá!
Nãaaaaao!
...
Snif, snif, snif.
Sacanagem... Filho da puta!
Grrr... Aaaahh!
Ugh!
...
ZzzZzz...

out 2005


Enfim, não é preciso ser um gênio para fazer um poema dadaísta. Meu fuck off à arrogância, sobretudo acadêmica.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

On the radio

Depois de um trabalho chatinho, ficou pronta minha "top list" atual, pelo 8tracks, site bacana apresentado a mim pela querida Nadja. Sim, tenho uma playlist geralmente exótica... Mas dessa vez procurei focar em músicas suaves e acho que o resultado ficou interessante =). Enjoy my 21 tracks.





PS: Djadja, o produto final é interessante, mas eles fazem a gente perder muito tempo obrigando a informar detalhes sobre as músicas, antes de liberar a playlist para ser compartilhada. Acho que é melhor procurarmos outro podcast mais ágil. E as músicas ainda não ficam na ordem que escolhi! rs

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Friendship



Então o amor e a amizade são isso. Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço! (Mário Quintana)


Aos meus inesquecíveis ;). #felizdiadoamigo

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Inquieta nº5

 Minha cabeça borbulha. Não tenho descanso. Nesse mundo frenético, estímulos sensoriais me invadem a todo o tempo. Como um estupro consentido. Alguém que pede para parar, mas as idéias não obedecem.

Frases, frases, frases. Piadas internas. Enquanto outros ainda se queixam pela dificuldade do brainstorming.

Milhares de imagens, músicas, cheiros, sabores, texturas disputam atenção e causam o torpor de uma droga não-química. Não adianta, não há preferidos ao lidar com uma pessoa perfil número 5. No máximo, paixões. São hedonistas por excelência.

Não escolhi ser versátil. Queria ser minimalista e não precisar me expressar o tempo todo. E a internet ainda alimenta esse vício.

Perigoso casar, se tatuar, fixar residência, trabalho, ter um bicho, um filho. É preciso deixá-lo com a mente livre, como uma criança curiosa e sem preconceitos que explora o mundo até achar suas respostas ou cansar. Até se conhecer e chegar a um consenso. Até ficar adulto e se acomodar. Até perceber que, para alguns, as únicas certezas são o espírito inquisitor e o desejo de variedade, para suplantar o enfado da rotina.


Mas se alguém falasse fundo, ao coração, não seria preciso escolher. É único. Um sentimento visceral que nasce facilmente da identificação. Da raridade que é ser compreendido. Como enjoar disso?

Até aceitar a si mesmo como ser humano plural, mas comum. Para não se afogar em sua própria criatividade, resta a arte como salvação (ou mais droga alheia). No passado, mesmo essa era confundida com sintomas de loucura.

Talvez nesses seja sentida, com mais intensidade, a incompletude da existência humana. Mas há esperança. O cineasta Benjamin Abrahão já dizia: “Os inquietos mudarão o mundo!”.

jun 2011


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